2. ENTREVISTA 16.1.13

LUIZ LOURES
"O BRASIL PODE SER O PRIMEIRO PAS A CONTROLAR A AIDS"

Um dos principais nomes do programa das Naes Unidas para o combate  doena, o mdico acredita que a epidemia deve acabar em 15 anos no mundo
por Rachel Costa

Foi a experincia com as polticas nacionais de enfrentamento  Aids que levou o mdico brasileiro Luiz Loures para o Programa Conjunto das Naes Unidas sobre o HIV/Aids (Unaids), em 1996. E foi a competncia demonstrada no trabalho que o fez ser recentemente nomeado vice-diretor-executivo do rgo. A chegada do brasileiro a um dos mais altos cargos do Unaids refora o pioneirismo do Pas no combate  doena e o reconhecimento de que iniciativas nacionais podem ser bons exemplos para outras partes do globo. Para Loures, grande parte do que se tem atualmente em nvel global se deve s aes brasileiras. Ele se recorda de uma de suas primeiras reunies em Genebra, em 1997, pouco depois de chegar s Naes Unidas. O establishment todo insistia que no era possvel o acesso ao tratamento em pases em desenvolvimento. Eu era o nico da sala que defendia a ideia, baseado na experincia brasileira, afirma. Hoje no h mais embate em relao ao assunto. Uma certeza que surgiu ao longo dos anos  que s  possvel vislumbrar o fim da epidemia de Aids porque se investiu em tratamento  e o primeiro pas a comprovar essa tese foi o Brasil. O cuidado agora, alerta Loures,  no deixar a oportunidade nica de controlar a doena ser comprometida pela falta de investimento dos governos.

"Temos de ser realistas. O HIV  um supervrus. Hoje, o que estamos falando  no fim da pidemia, no em erradicar o vrus"

"O nmero de crianas infectadas por HIV caiu 40% de 2003 para 2011. S nos ltimos dois anos a diminuio foi de quase 25%"

Isto - Como o sr. avalia o trabalho do governo brasileiro no combate  Aids?

Luiz Loures - O Brasil pode ser o primeiro pas a controlar a Aids. Ele foi o primeiro entre os pases em desenvolvimento a dar um passo em direo a uma resposta efetiva  epidemia de Aids. Vale lembrar que, desde o comeo, 90% dos casos esto no Sul, no no Norte. Alm disso, o Pas agiu corretamente quando, em uma fase bastante preliminar, optou pelo acesso universal e gratuito ao tratamento. 

Isto - Essa escolha pode ser considerada a chave para o sucesso do programa brasileiro?

Luiz Loures - Sim. Isso ocorreu em uma poca em que o mundo todo, e principalmente os pases desenvolvidos, eram contra o tratamento. Achavam que seria muito caro e que o vrus criaria resistncia. Mesmo assim o Brasil deu esse passo. Hoje temos evidncias de que o tratamento em larga escala  uma das formas mais efetivas para se prevenir a transmisso. Tratando-se, h uma possibilidade de reduo da transmisso de 96% em casais nos quais um  positivo e o outro  negativo. Quem trata no transmite. Alm disso, o Brasil combinou progresso cientfico e mobilizao social desde muito cedo, o que foi muito positivo. 

Isto - Quando o sr. fala em fim de epidemia, qual  o prazo?

Luiz Loures - Quinze anos  um tempo seguro. Essa estimativa se baseia na minha experincia e no tempo gasto para que tivssemos o coquetel disseminado no mundo em desenvolvimento e principalmente na frica. No incio dos anos 2000 o tratamento comeou a ser disseminado entre os pases do Sul e levou dez anos para que isso atingisse a escala esperada. 

Isto - No Brasil, que est em um estgio mais avanado, pode ser que ocorra antes?

Luiz Loures - Sem dvida. Quinze anos  para dar uma estimativa mais confortvel, baseando em uma anlise histrica. A batalha final ser a mais difcil. Globalmente, hoje, estimamos oito milhes de pessoas em tratamento.  a primeira vez que temos mais gente recebendo o medicamento do que na fila de espera para se tratar. Cerca de sete milhes teriam plena indicao para receber o coquetel, mas esto sem acesso. Esses sete milhes sero mais difceis de acessar que os outros oito milhes j acessados. 

Isto - Por qu?

Luiz Loures - Porque so as pessoas em situao mais complicada. Na Europa do Leste, por exemplo, apenas 22% esto em tratamento. Na sia, os remdios chegam a apenas metade dos pacientes. Na frica, mesmo com todo o progresso, ainda h dificuldade em alguns segmentos populacionais. Fundamentalmente so indivduos que pertencem a grupos vulnerveis, como, por exemplo, os usurios de drogas ou os gays em pases onde h restries  homossexualidade. 

Isto - A parte mais difcil ser atingir esses grupos vulnerveis?

Luiz Loures - Sim. Porque  onde tambm existe mais discriminao. A gente sabe o que fazer, tem os instrumentos cientficos, tem a experincia, mas as restries esto relacionadas ao acesso aos direitos humanos. Por exemplo, a questo dos usurios de drogas: h polticas bem-sucedidas de reduo de danos para barrar essa transmisso, mas essas iniciativas no so aceitas em pases nos quais o usurio de drogas  tratado como caso de polcia e no como de sade  o que ainda ocorre na Europa do Leste. O mesmo vale onde a relao homossexual  penalizada com pena de morte. No se pode esperar que nesses lugares um gay masculino busque atendimento abertamente. 

Isto - Mesmo nos pases em que h boas polticas de combate  Aids, como o Brasil, a taxa de infeco estacionou. Isso no atrapalha os planos de erradicao da doena?

Luiz Loures - A epidemia e a resposta a ela no evoluem de uma maneira linear. A experincia mostra que a evoluo  feita em ondas. Reduz-se o nmero de pessoas sob risco at se chegar a um ponto em que ficam s as parcelas mais difceis da epidemia.  o que vem acontecendo nos pases que esto avanando mais: eles esto batendo justo nessa barreira. Um exemplo  o paradoxo da dinmica entre gays. Se por um lado avanamos com os programas de preveno, tratamento e incluso social, por outro observamos o crescimento da contaminao entre jovens. 

Isto - E como vencer esse paradoxo? Como conseguir um equilbrio entre acabar com o estigma contra quem tem Aids e, ao mesmo tempo, mostrar que  uma doena perigosa?

Luiz Loures - Talvez esse seja nosso maior desafio. A epidemia no acabou. Polticas tm de ser revistas e  preciso dar mais ateno a algumas populaes. Crianas e adolescentes devem ser os focos principais. Esses pblicos precisam aprender a lidar com a noo de risco relacionada  Aids e a outras doenas sexualmente transmissveis. Para isso, porm,  preciso ter abertura da sociedade para se falar sobre sexualidade desde cedo. E a ainda existe uma barreira. 

Isto - O senhor fala da erradicao da epidemia, no da doena.  utpico crer que o vrus ser erradicado?

Luiz Loures - Temos de ser realistas. O HIV  um supervrus. Um dos maiores desafios que ele apresenta do ponto de vista de desenvolvimento de uma vacina  a sua capacidade de mudana. 

Isto - Vacinas contra o HIV esto longe de ser uma soluo vivel?

Luiz Loures - H esperanas de uma vacina, mas no seria correto dizer que caminhamos hoje no mesmo passo em direo a erradicar o vrus e controlar a epidemia. O que estamos falando  no fim da epidemia, em reduzir as taxas de transmisso para nveis no epidmicos. 

Isto - Cortes financeiros vm sendo realizados nos rgos das Naes Unidas devido  crise. Como est o oramento da Unaids?

Luiz Loures - A Unaids tem resistido  crise at pela importncia da epidemia, mas o que as Naes Unidas como um todo empregam no controle  Aids  uma parcela pequena se considerado o gasto mundial. Estima-se que em 2011 o gasto global com a Aids foi de US$ 17 bilhes. Ainda so necessrios pelo menos 30% mais de recursos e tem havido uma mobilizao muito grande, apesar da crise financeira. 

Isto - Alguns pases europeus tm anunciado o corte do acesso de estrangeiros ilegais ao coquetel. Isso pode ameaar os bons resultados globais no controle da epidemia?

Luiz Loures - Estrangeiros devem ter acesso  preveno, ao tratamento e ao cuidado onde quer que eles estejam. O vrus no respeita barreira geogrfica, nem de onde  seu passaporte ou se voc tem ou no um passaporte. O acesso no  um benefcio ao indivduo, mas sim uma questo de segurana social. 

Isto - O Plano Global para a Eliminao de Novas Infeces do HIV em Crianas tem como prazo para seu cumprimento o ano de 2015.  uma meta alcanvel? 

Luiz Loures - Sim. O nmero de crianas infectadas por HIV caiu 40% de 2003 para 2011. S nos ltimos dois anos a diminuio foi de quase 25% e isso tem acontecido nos pases com os maiores volumes de transmisso de me para filho. No  uma tarefa fcil, mas existe uma forma relativamente simples de cumpri-la, basta deciso poltica. H, claro, fatores que vo alm da epidemia de Aids, como o acesso ao pr-natal, mas o crescimento recente e importante no nmero de mulheres que o tem acessado nos d esperanas. 

Isto - Outra questo quando se fala em Aids  o subdiagnstico. S no Brasil, cerca de 135 mil pessoas tm o vrus e no sabem. Como melhorar isso?

Luiz Loures - Esse  um problema srio e especialmente importante hoje, que sabemos o que fazer e o que oferecer para o indivduo soropositivo.  preciso quebrar o tabu do teste. Ele no pode ser visto como um bicho de sete cabeas. So necessrias campanhas massivas de acesso ao exame, como o Brasil fez recentemente. Essa , inclusive, uma das minhas prioridades a partir de agora. 

Isto - No ltimo ano, Jos Graziano assumiu a direo da FAO devido  sua experincia com o Bolsa Famlia. Agora o senhor passa a ocupar um dos postos mais importantes da Unaids tambm por causa da sua experincia no programa brasileiro de erradicao da Aids. As experincias brasileiras esto, finalmente, sendo reconhecidas internacionalmente?

Luiz Loures - Sim. Aprendi a lidar com a Aids e com polticas pblicas para a doena no Brasil. J estou fora h mais de 15 anos, mas sempre uso a experincia brasileira. Em qualquer frum internacional, as polticas brasileiras de combate  Aids so as mais avanadas e as mais inclusivas. Voc citou o exemplo do Graziano e as polticas brasileiras de combate  fome. O Brasil est dando exemplo nessa rea e continua dando exemplo em relao  Aids. Somos uma liderana em nvel internacional nesses assuntos, isso  incontestvel e esse espao deve ser reivindicado. 

Isto - Qual o maior desafio do sr. no novo cargo na Unaids?

Luiz Loures - Passar a mensagem de que a epidemia no acabou, mas que, por outro lado, ns nunca tivemos uma chance to boa de control-la. Ser um erro histrico comprometer essa possibilidade por causa de uma crise econmica ou qualquer outra coisa. Costumo dizer, aos economistas, em especial, que ou pagamos a conta agora ou vamos pagar muito mais caro se deixarmos para mais tarde. 


